Encarnar no palco um texto de Plínio Marcos é uma tarefa ambivalente. Por um lado, o elenco tem nas mãos a certeza de uma boa história, contada a partir de uma intensidade realista que poucos na dramaturgia nacional conseguiram alcançar de modo tão loquaz. Por outro, trata-se de um trabalho árduo, que exige uma precisão dos efeitos teatrais os quais dificilmente seriam compatíveis com artistas inexperientes. Pecar por excessos ou pelas faltas, diante de situações dramáticas tão pungentes e reais, ganham mais evidência e são de certa forma comuns em muitos trabalhos. Diante desse quadro, a adaptação de O Abajur Lilás feita pelo Grupo Imagens de Teatro, que está em cartaz aos sábados de novembro no TJA, é muito bem sucedida.
Na adaptação do Grupo Imagens, o primeiro ponto positivo é a ambientação. Soluções simples e criativas conseguem trazer para o espaço cênico a atmosfera do bordel ou casa de massagem. O palco está dividido entre o quarto onde trabalham as prostitutas e o salão, onde ficam os freqüentadores do local que, na montagem do Grupo Imagens, são inteligentemente confundidos com o público o qual se espalha pelas mesinhas de plásticos, dividindo espaço constantemente com os atores. A música ao vivo, com direito a repertório brega cantado pela cantora e atriz Clara Luz, apenas reforça a sensação de imersão no ambiente temático apresentado no texto.
A direção é outro destaque em O Abajur Lilás. Edson Cândido permite fluir ações simultâneas, falas intercortadas, gaguejos a atos-falhos que enriquecem a interpretação dos atores e tornam as cenas vivas e reais. Em geral, a dramaticidade das cenas são conduzidas de maneira limpa, sem saídas mirabolantes, simples e diretas. A proposta de trazer uma leitura realista da peça - em se tratando de O Abajur Lilás, uma proposta recomendável – é bem contemplada.
A interpretação é outro ponto significativo da peça. De maneira geral, o elenco trabalha bem. Alcançar a verdade de cada uma daquelas personagens que vão se descortinando de maneira tão tímida por dentro das máscaras que lhes incrustam a face e lhes mostram para a sociedade a partir da função que elas desempenham diante dela, deve ter sido o grande desafio dos atores. A construção das personagens partem dos esteriótipos (a prostituta, o cafetão homossexual), mas não se encerram aí. Elas têm uma identidade própria, são Giro, Célia ou Dilma, e não sujeitos impessoais, substantivo comum.
Algumas observações individuais, no entanto, poderiam ser feitas. Por exemplo, a atriz Kátia Kamila, que interpreta a prostituta Célia, concebe uma personagem que ganha a simpatia do público pelo grau de embriaguez e irracional ousadia para contrapor Giro, o cafetão. A despeito do seu interessante trabalho, em algum momento a sua personagem tem um nível de lucidez para propor idéias que parece incompatível com o grau de debilidade alcoólica impregnado à Célia. Talvez, se Kátia, em algumas passagens, diminuísse um pouco o tom de embriaguez da personagem, tivesse um resultado ainda mais interessante.
Adriana Pimentel também concebe com competência a personagem Dilma. O porém está num tom monocórdio que percorre a personagem durante toda a peça, com pouquíssimas variações. A expressão defensiva e ríspida das suas falas, convenientes com a história de Dilma, poderia sofrer maiores alterações no decorrer das interpelações durante o espetáculo. O mesmo vale para Beto Menêis, o qual interpreta o cafetão Giro e que poderia variar um pouco mais as intenções das falas. Mas nada compromete o bom trabalho realizado.
Mara Alcântara, no papel de Leninha, não parece muito confortável em cena. Isso impede que a personagem flua inteiramente. O público na maioria das vezes percebe a tensão do embate entre atriz e personagem disputando para aparecer na cena, o que seria indesejável levando em conta a proposta de todo o espetáculo.
A montagem do Grupo Imagens de Teatro para O Abajur Lilás cumpre sua função provocativa. O público sai das sessões com um embrólio no estômago resultado das cenas fortes que acabou de ver. Como toda a obra de Plínio Marcos, o texto foi feito para incomodar, fazer olharmos para uma ferida tão bem escondida que não nos damos conta do quão perto de nós aqueles personagens podem estar remoendo suas dores, dramas, agonias. A peça foi concebida por Plínio para nos dá um soco no estômago mesmo. O que o Grupo Imagens faz com competência é emprestar os punhos. E quem ganha com isso é o público sedento de bons trabalhos nos palcos do Ceará.
O ABAJUR LILÁS , montagem do Grupo Imagens de Teatro
Todos os sábados de novembro ( exceto dia 21 ),
Sempre às 19h
No Theatro José de Alencar (sala Nadir Papi Saboia)
Entrada: $8 e $16
Blog: http://www.grupoimagensdeteatro.blogspot.com/